Reportagem Michelle Occiuzzi
Feche
os olhos... Imagine um campo grande com gramas verdes que se destacam
com o azul claro do céu... O sol de final de tarde ilumina
e esquenta a pele em uma temperatura perfeitamente agradável... Em um sopro, o
vento te traz uma música perfeita, limpa e clara...
Esse
início pode parecer bem estranho para um blog de mães, mas foi a única maneira
que encontrei de descrever em palavras a sensação que tive ao escutar as músicas
do CD “O início de tudo” do Grupo de Música da Associação Pestalozzi de
Campinas.
Senti PAZ!
Como
a maioria dos instrumentos usados no projeto não são convencionais e cada nota é extraída de
materiais reciclados, eu passei o tempo todo tentando decifrar a origem de cada
som. Tudo ficou ainda mais mágico quando lembrei que quem estava comandando aquela
magia eram crianças e adultos com deficiência intelectual e deficiências múltiplas.
Amanhã,
dia 20 de Outubro, a Associação fará o pré-lançamento do CD em uma apresentação
exclusiva. Além de escutar, você poderá assistir a força de uma nota que vem de
um piso quebrado, de um cano reaproveitado, de uma lata de tinta e de um galão
de água.
A
Escola de Educação Especial “Associação Pestalozzi de Campinas" é uma ONG
que presta, gratuitamente, atendimentos educacionais e terapêuticos nas áreas
de pedagogia, fonoaudiologia, fisioterapia, psicologia, terapia ocupacional,
educação física, serviço social, entre outros, para crianças, jovens e adultos
com deficiência intelectual e/ou com múltiplas deficiências.
O
grupo de música nasceu em agosto de 2008, quando o professor de música Ricardo
Botter Maio iniciou um projeto denominado “Musicalização através da Percussão”
com os educandos da escola. O objetivo do projeto era o de utilizar a música
como mais um recurso na contribuição na aprendizagem e no desenvolvimento global
de pessoas com deficiência. A música auxilia na manutenção das habilidades
básicas e na superação de limites quanto a: expressividade, socialização,
habilidades auditivas, memória, ritmo, coordenação motora, além de promover o
bem estar emocional e biopsicossocial de nossos educandos.
No
decorrer dos anos, o professor Ricardo compôs diversas músicas para que os
alunos pudessem explorar e tocar os instrumentos musicais construídos tanto
pelo professor, como pelos profissionais e alunos.
Foram
muitos os ganhos: melhora da autoestima, melhora da coordenação motora, alunos
menos tímidos e mais sociáveis, com mais iniciativa para se expressar e se
comunicar, dentre outros.
A
partir daí, surgiu à ideia de gravar um CD, em que a escola toda se envolveu,
com a finalidade de registrar e divulgar o trabalho realizado.
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| Capa do CD "O início de tudo" |
Leia a entrevista com alguns
dos integrantes do projeto
Maria Helena Van Ray
– Diretora pedagógica
Ricardo Botter Maio
– Professor de música
Renata Maria
Medeiros Usberti – Fonoaudióloga
Sandra Damiano Netto
– Pedagoga
Porque a música é tão importante para o desenvolvimento de qualquer
pessoa?
A
música é tão importante no desenvolvimento infantil, como em todas as fases da
vida, porque por meio dela, o ser humano desenvolve a autodisciplina,
sensibilidade, paciência, autoestima, memória, coordenação motora e
concentração. A experiência musical não ativa uma única função cerebral. O
prazer da música é um ato que intervêm muitos estímulos: visuais, cognitivos,
psicomotores, emocionais, além de ativar o ritmo cardíaco, o tônus muscular, a
libido e a função hormonal.”
Como foi feita a escolha das músicas?
A
formação do repertório iniciou-se logo nos primeiros meses do projeto, quando
os profissionais perceberam que as respostas estavam sendo muito positivas. A
partir daí, o professor Ricardo compôs a primeira das músicas que veio a dar
nome ao CD posteriormente. Utilizando-se de alguns instrumentos que já possuía
e usava - como quatro pisos de cerâmica afinados e suspensos que faziam parte
de exercícios de concentração e ritmo nas aulas – que, ao final, deram à música
uma estrutura inicial que poderia ser executada de forma regular e seguindo uma
métrica pré-estabelecida. O projeto teve continuidade com o surgimento de novos
instrumentos e, com isso, demonstrações de habilidades específicas de cada
educando e, consequentemente, surgiram novas músicas.
Em
meio a tantas descobertas, o potencial vocal de uma educanda chamou-nos a
atenção para a possibilidade de termos também uma canção com letra. Assim
surgiu “Horas, minutos, segundos” - primeira canção das cinco existentes no CD
– em que uma cantora profissional gravou a canção como guia, e a fonoaudióloga
pode realizar um trabalho de memorização, articulação e afinação com a educanda.
Esta “fórmula” norteou o trabalho para a criação de novas músicas e a
finalização na escolha do repertório.
Existe algum exercício feito ao escutar as músicas ou o simples
fato de escutá-la já é um exercício em si?
Sim,
existem exercícios que são realizados durante a audição das músicas, como
aquecimento e alongamento de membros superiores, treino de ritmo, de
coordenação motora, memória auditiva, entre outros. Além disso, o simples fato
de escutá-la já é um exercício em si, pois promove o bem-estar, a descontração,
relaxamento, recordação de momentos prazerosos, dentre tantos outros
benefícios.
Porque esse projeto é tão importante para vocês?
Ricardo: “para mim, como compositor, é uma oportunidade de criar e
perceber que as criações musicais de minha autoria podem ser úteis no processo
de ensino-aprendizagem dos alunos da Pestalozzi”.
Renata: “acredito que trabalhar com a música enriquece a vida das
pessoas, inclusive a minha. Vejo a música como uma linguagem complexa e grande
aliada no processo terapêutico instituído durante a habilitação e reabilitação
do ser humano”.
Sandra: “sempre acreditei na parceria música e
pedagogia, e uma vez que adaptamos o currículo regular para torná-lo apropriado
às peculiaridades dos educandos, percebi que as aulas de música iriam
oportunizar vivências das quais nossos
educandos nunca haviam tido, o quanto
isto contribuiria para o trabalho da
pedagoga e consequentemente alunos dispostos e felizes no momento da
aprendizagem. Quando conheci o trabalho do Prof. Ricardo, constatei que queria
este projeto dentro da Pestalozzi e, com
a Renata, pude encontrar a parceira que precisava para concretizar a ideia. O
CD é o resultado positivo que estamos colhendo após 4 anos”.